sábado, abril 24, 2010

A vida é um retrato nu e cru. É um quadro que dá a sensação de que se tocarmos, sujamos o dedo com a tinta fresca. Mas muitas vezes essa tinta está tão seca e ressequida e, para além do quadro ficar velho e sem gosto, tornando-se até desagradável, surgem questões sobre os tons. Chega a ser confuso. E então começamos a desconhecer as formas, os traços. Uma linda paisagem pode-se tornar na pintura mais abstracta. Tudo aquilo que nos é familiar, pode deixar de o ser de um segundo para o outro, se olharmos bem de perto. Começamos a ver detalhes nos quais nunca havíamos reparado. Descobrimos umas falhas, aqui e ali, e mais cedo ou mais tarde o prego tem ferrugem e está meio solto. O quadro cai, batendo no chão e despedaçando a moldura. Mas há quadros com sorte. Há quadros que são restaurados e voltam a ser pendurados. E aparentemente, eu sou um quadro sem sorte. Então a minha parede permanece branca e é deixada ao acaso. É passando a mão por esta parede lisa, mas imperfeita e tão branca, tão fria, que percebo que para respirar, é preciso ter-te. Tu és a condição.

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